Primeiro tenha consciência de que o rato não é nada além de um objeto, descartável e substituível, que não pensa por si só. Ele é apenas um anexo à Roda, para seu funcionamento. Apenas. Sugiro: Há penas. Logo, não tenha por ele apreço e não sugiro: tampouco crie vínculos: ele serve apenas para fazer a Roda girar. Porque a Roda, meu caro, a Roda não pode parar.
O rato deve ser ágil, não pode perder tempo, porque tempo, pra Roda, é vida. É necessário dar ao rato pão, digo, queijo, mas não circo. A Roda já é seu circo. Mesmo que ele não perceba e não queira. Na verdade, o rato nem pensa nisso. Afinal, o rato tem comportamento moldável, segundo a necessidade da Roda. Mas não deixe o rato se distrair, porque a Roda, meu caro, a Roda não pode parar.
A Roda só roda para um lado. Caso um rato subversivo resolva tentar rodar a Roda para a esquerda, deve ser imediatamente jogado no aquário das cobras. A Roda só roda para a direita, e isso rato nenhum vai mudar. Porque a Roda, meu caro, a Roda não pode parar.
Caso o rato se canse, substitua-o imediatamente. Coloque sua recompensa na ratoeira – de ouro, claro – e deixe-o se deliciar, pelo tempo de esforço na Roda. Ele serve à Roda, girando por Ela, e a Roda se serve dele, girando por Ela. Porque a Roda, meu caro, a Roda não pode parar.
Use, abuse e desfaça-se do rato na Roda. Uma massa de ratos iguais está sendo preparada todos os dias por diversos laboratórios espontâneos. Os ratos podem até mudar, mas a Roda é sempre a mesma e sempre será, porque essa Roda, meu caro, essa Roda não pode parar.
Por Ana Laura Berigo Marques

Uma sutileza incrível no trato de um assunto quão espinhoso.
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