Guardei a última rosa, vermelha desbotada
No canto esquerdo.
O último cheiro de perfume, escondi mais no fundo.
Acomodei aquela última gota de suor,
que desenhou norte e sul em seu peito febril,
que desenhou norte e sul em seu peito febril,
Naquela última noite de amor,
Ao lado das tardes chuvosas de domingo.
Embrulhei teu último sorriso, ainda sorrindo.
E ainda quente, seu último abraço.
Foi fácil.
Joguei por lá, meio sem jeito, os últimos passos no corredor,
O telintar das chaves e
A ausência do último olhar ao cruzar a porta.
Amarrei o mais forte que pude o nó no peito
E depositei, devagar pra não desatar,
Do lado direito.
Parecia mais fácil de longe.
Desembrulhei o silêncio há muito guardado,
Deixei-o em cima da mesa a me fitar.
Eternos segundos de uma estranheza feroz.
Foi então que percebi que Neruda é que tinha razão.
Posso já não amar tanto,
Mas talvez ainda ame.
Por Ana Laura Berigo Marques

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