Eu fui uma imbecil. Simples e fatal: uma imbecil incorrigível. Senta aqui, vou te contar. A história é longa, confesso. Mas história de amor que se preze precisa de tempo pra conter drama suficiente para ser digna de papel. Talvez eu, que mergulho de cabeça nessas pessoas rasas, estava errada em chamar de amor. Pode ter sido apenas uma paixão. Avassaladora. Daquelas que vira nosso mundo de cabeça pra baixo e nem o espelho tem certeza que é você habitando aquele corpo. Não sei o que havia me tornado – além de uma imbecil. Ora êxtase, ora inferno, minha vida andava numa montanha russa maldita, me fazendo amar e odiar na mesma intensidade dentro de um único minuto. É, eu também não sei por que a gente se presta à esses papéis. Talvez seja o universo permitindo algumas coisas na nossa vida, pra ver se a gente cresce e aprende a ter coragem. Ou talvez eu fosse mais imbecil que os imbecis normais, porque eu passei por dias que não me aguentava de saudade. Meu peito sangrava, meu coração apertava, me faltava ar e eu ouvia o Zeca cantar pra mim que eu tava com “saudade d’ocê”. Eram as noites que eu sonhava com ele, acordava assustada e com raiva de me permitir passar por aquilo. Mas tinha dias que eu precisava de 10 segundos para raciocinar sobre “Quem era mesmo... ah tá, ele”, sinceramente, numa indiferença vitoriosa. Mas olha, eu passei dias de cão! Dias sem me alimentar, de arroz e de fé, permitindo que meus medos devorassem o pouco de esperança que sobrava aqui dentro. A impressão que eu tinha era de estar vivendo num pós-furacão emocional, onde estava tudo – absolutamente tudo – de ponta cabeça, amontoado, confuso. Lutava comigo, numa disputa incansável, sobre querer saber sobre ele ou fingir que nunca conheci. Nenhuma rede social desbloqueada, nenhuma ligação atendida, nenhuma mensagem retornada. Mas confesso que, como uma superimbecil, eu esperava pela ligação que eu não iria atender ou a mensagem que eu não iria responder. De alguma forma, meio doentia eu sei, eu queria que ele lembrasse de mim. Se arrependesse todos os dias do que me fez passar e, principalmente, do que abriu mão de passar ao meu lado. Acho que silenciosamente eu alimentei um monstro que crescia junto com a minha cegueira seletiva. É claro que, pro mundo, tava tudo bem. Eu jamais, JAMAIS, confessaria uma saudade dele. Mas nem morta! Mas tinha dia que era foda. Eu me tornava uma imbecil ultra super mega. Onde já se viu lembrar daquele sorriso de bom dia, com olhos semi abertos de preguiça, um abraço demorado, deitado naquela coberta de elefante e o nosso café na cama ? Onde já se viu rir sozinha das piadas que a gente fazia, dos planos que a gente tinha, daquelas implicâncias idiotas, do Breaking Bad que eu ainda não tive coragem de voltar a assistir? Pra que ficar pensando no modo como ele me olhava quando a gente fazia amor, o jeito que ele sorria satisfeito e me aninhava no peito? Qual a finalidade de morrer de saudade do beijo longo, cheio de vontade, que parecia sempre o primeiro? Eu era realmente uma imbecil plus advanced master. Eu já me peguei sorrindo e depois chorando e sorrindo de novo, parecendo uma idiota, olhando pras nossas fotos. Me arrependia de ter insistido por cada clique que dei de nós dois. Se eu soubesse como essas lembranças pesariam, deixaria apenas as que ficaram guardadas na minha cabeça. Eram suficientes. Registros fotográficos de uma fase a ser esquecida são as testemunhas mais cruéis da nossa história. Shakespeare estava certo quando disse que “guardar algo que possa recordar-te, seria admitir que eu pudesse esquecer-te”. Por isso eu apaguei tudo, dei nossas fotos pra minha mãe esconder, não usava nunca os presentes que ele me deu, evitava nossas músicas. Porque eu não podia esquecer. Talvez fosse assumir uma fraqueza e tanto, dar uma vitória de bandeja pra alguém que não merece. Mas eu sou assim. Eu não aprendi o desamor, como ele finge ter aprendido. E nem quero, porque graças à isso, hoje eu sou um punhado de experiências. Um punhado de dores de desamores e tantas desventuras. Sou um arranjo de quem cruzou meu caminho, no asco ou no carinho. Fui somando as minhas partes, que são pedaços soltos daqueles que partiram de mim. A maior partida foi ele, sim. Incontestável. Não vou negar que diversas vezes eu rezei pra que tudo aquilo não passasse de um pesadelo e quando eu acordasse, nunca teríamos nos conhecido. Mas não é tão simples. Nunca vai ser. O que me consola é saber que sempre - sempre – tem o que aprender numas situações assim e se não for pro bem, vai ensinar como não devo ser. Como não sustentar o mundo de outra pessoa nas mãos sem ter a intenção de realmente segurá-lo. A questão é que ser uma pessoa intensa nesse mundo supérfluo é atividade de alto risco. A gente quebra a cara, quebra as asas e fica com muito medo de voltar a voar. Mas ainda assim, não deixa de acreditar e uma hora, por mais difícil que pareça, a gente volta. Talvez volte porque é mesmo imbecil, que não espera por alguém que cure feridas ou preencha lacunas que foram deixadas, mas alguém que não deixe nenhuma dor passada ser lembrada pelo simples fato de transbordar naturalmente aquilo que falta. No meu caso, essa pessoa podia ter sido ele, mas talvez ele seja ainda mais imbecil a ponto de achar que eu nunca superaria a falta que ele me fez – assim, no passado, porque eu aprendi a conviver com ela, sem dor, sem culpa, amigavelmente me ensinando que vão-se os anéis e ficam os dedos... No fim, todo mundo, por mais imbecil que pareça, aprende alguma coisa: nem que seja como é ruim ser o imbecil da vez e não fazer o próximo de imbecil, porque é chato pra caralho.
Ana Laura Berigo Marques