Quando eu chorar porque perdi um paciente, não me peça para me acostumar porque escolhi a área da saúde. Quando eu sofrer junto com uma mãe que vê seu filho lutar contra um câncer, ou uma filha que precisa se despedir de um pai, não me peça para entender que quem escolhe trabalhar com saúde tem que aprender a lidar com doença e morte. Quando eu me emocionar com um pedido de ajuda ou um agradecimento final de um paciente, não me julgue fraca, porque eu preciso me acostumar com "esse tipo de coisa". Se um dia eu parar de chorar junto a um leito, se um dia meu coração não apertar ao consolar um filho ou um pai, se um dia eu ousar não explodir de alegria pela melhora de alguém que passe pelas minhas mãos, ou o contrário, sentir uma parte de mim despedaçar ao ver um paciente partir, se um dia eu não chorar numa derrota contra uma doença ou sorrir numa vitória que parece tão simples como dois passos, penduro meu jaleco e vou trabalhar com máquinas. Exatamente por não me acostumar com os golpes duros da vida é que amo a área da saúde. Trabalhar com pessoas é um dom que requer sensibilidade e paciência, amor e dedicação. Do sorriso que acolhe, do toque que acalma, do sinto muito que conforta. Ninguém escolhe a área da saúde; acredito que você nasce predestinado à contribuir com outras vidas. Se um dia eu me acostumar com a dor, não dobrar os joelhos para agradecer uma recuperação ou não conseguir ser forte o suficiente para assumir minha fraqueza perante à fragilidade da vida, penduro meu jaleco e, por Deus, nunca mais ouso pensar em lidar com pessoas, porque antes de reabilitar o corpo, preciso ofertar cuidados que toquem e curem a alma.
Ana Laura Berigo Marques
Foto do meu paciente querido, que chorou comigo ao se despedir. Obrigada por cruzar meu caminho, onde quer que você esteja hoje, vai ser sempre a parte mais bonita da minha vontade de fazer o bem.

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