sexta-feira, 14 de março de 2014

Luz

Tenho uma Luz.
Não é no fim do túnel como dizem as crenças.
Nem no meio do caminho, feito a pedra.
Está no início de tudo. 
No gênese da caminhada.
Nas horas de riso e nas horas de maçada.
Tenho uma Luz bem minha, 
de toda hora, de toda quinta de primeira.
Dos traços, dos passos, dos versos paridos ás sextas-feiras.
No ínicio, meio que pelo acaso da feliz segunda-feira, 
todo dia é dia de render-se a saudade costumeira.
Amo-te tanto, 
todo dia um pouquinho mais. 
Tenho uma Luz que acende as minhas mais tristes escuridões.
Fogos de artifício, fogueiras e clarões.
Tenho uma Luz, que consegue ser Luz até estando em treva.
Segura firme minha mão, me guia, me revela. Me eleva. 
Tenho uma Luz que traz sorte,
Pé-de-Coelho, trevo, amuleto de prece.
Que seja na pressa, não interessa:
Se tem "Bom dia Luz" o dia se aluimia. 

Ana Laura Berigo Marques





Amo você, Pé-de-Coelho, obrigada por me deixar fazer parte do seu espetáculo. 

Coisa

Acho graça dessa coisa que me dá
quando sobe sua janela
com uma besteira pra me falar.
Acho graça do meu coração satitando
parecendo uma gazela, 
me sinto meio princesa e meio cadela.
Acho graça dessa coisa que me dá
de que, mesmo não podendo, querer te roubar,
louca pra te devorar.
Acho graça da coisa que me dá 
quando vejo que você desconversa 
quando eu banco a pedreira a assoviar - fiufiu.
Acho graça dessa coisa que me dá
quando a saudade dá pulinhos 
a me contrariar. 
Só não acho graça quando eu tô de tpm. 
De tpm fica cinza essa gracinha.
Aí não tem graça sentir coisa sozinha. 


Ana Laura Berigo Marques





Elo

Não conseguiria olhar nos seus olhos 
e dizer exatamente o que eu estou sentindo agora. 
Talvez seja um pouco de espírito protetor.
Talvez peso na consciência por não fazer
o tanto - infinito - que você merece.
Não conseguiria olhar nos seus olhos agora
porque estou chorando envergonhada 
por não conseguir olhar nos seus olhos.
Não tenha como um pedido de desculpas,
nem uma obrigação, nem remorso.
Tenha como a transcrição do amor 
que não consigo por em prática da melhor forma.
Mas tenha como amor, 
escrito, clamado, chorado e versado,
mesmo que não consiga olhar nos seus olhos.
Não está sendo nada fácil, eu sei. Eu sinto.
Queria ser essa fortaleza que você é
porque eu me pego chorosa sempre que penso em tudo isso que está acontecendo.
Desculpa não olhar nos seus olhos.
Mas antes de olhos, coração. 
Amo imensuravelmente cada detalhe da sua existência.
Cada acorde que saem das suas mãos auto didatas, 
cada tom que atinge sua voz em melodia.
Amo, inenarravelmente,
cada crise e cada briga que temos por não saber que roupa usar
ou que cor de maquiagem combinar.
Amo ser espelho. 
Amo sua capacidade. 
Amo sua fé. 
Amo sua inteligência e talento.
Amo ser coruja.
Amo seus olhos de jaboticaba.
Desculpa não conseguir olhar dentro deles pra te dizer tudo isso.
Mas eu quero que saiba que faço - e farei
o impossível para mantê-los assim:
faróis pra mim.
Mesmo que não esteja te olhando nos olhos,
te amo, sem fim.


Ana Laura Berigo Marques





Sobre erva doce e simplicidade

Podia ser tudo simples, como quando você me disse adeus, 
aquela vez, enquanto eu chorava 
porque precisava me despedir - pra sempre - e não conseguia,
eu senti seu cheiro e deu um estalo.
Erva doce! 
Pronto, o perfume da sua pele tem cheiro de erva doce.
Eu sempre quis especificar o cheiro bom que ficava em mim
mas nunca sabia o que era.
E naquela hora, eu descobri. Simples.
Podia ser simples como a facilicidade que
 eu desconcentrei de todo o seu diálogo
doloroso de como a gente se ama e como seria bom
se desse certo.
E só pensava em como um cheiro tão comum 
de erva doce (erva doce!) 
podia me aninhar tão bem. 
E podia ser sempre simples - acho que você nem percebeu - 
pra eu continuar sorrir chorando. 
É que fiquei me lembrando das duas últimas horas 
que eu estava grudada em você, 
querendo roubar você do mundo e te trancar no meu guarda-roupas.
E quantas vezes nós repetimos
"Podia explodir tudo lá fora e sobrar nós dois"
Podia ser simples 
mas acho que a gente ia se matar.
Só que naquelas duas horas que eu passei enroscada no seu corpo
com cheiro de erva doce, 
Deus,
que paz.
Me impressiona a capacidade que você tem de ser 
meu céu e meu inferno.
Manjado, eu sei.
Mas é exatamente isso.
Teoricamente é tão simples:
Dois corpos se encaixam de forma tão brilhante, 
numa sintonia quase palpável
e ao mesmo tempo
são tão distintos.
Na verdade iguais demais.
Em tópicos, é simples:
Odeio suas manias.
Odeio sua imposição.
Odeio você querer estar sempre certo.
Isso sou eu quem faz.
Não você.
Mas aí vem seu sorriso.
Podia ser simples
mas eu amo seu sorriso. E minha risada de doer a barriga quando
você faz gracinha. 
E eu amo seus olhos pairados nos meus. E meu sono tranquilo
quando você mexe nos meus cabelos.
E eu amo você me acordar de manhã 
e falar que eu vou ser expulsa de casa.
E eu amo acordar do seu lado. 
Sabe, 
as vezes as coisas são complicadas.
As vezes a gente complica elas também, eu sei.
Podia ser tudo simples,
como um choro sorridente que leva a um beijo escandaloso e que acaba com uma discussão ao som de Magic, do Coldplay. 
Podia ser tudo simples, como o mundo realmente explodir
e ficarmos só nós e seu perfume de erva doce. 


Ana Laura Berigo Marques





40°

Peguei minhas chaves, tranquei a porta da sala,
coloquei a mala no táxi e fui.
Estava deixando na calçada meia dúzia de lembranças velhas
que não queria mais
junto com amontoado de dúvidas e incertezas
e uma coleção de medos que vinha juntando há algum tempo.
Fui guiada pela minha coragem momentânea 
até o mar.
Eu andei pela calçada até colocar os pés na areia 
com os olhos cheios de água doce
e desabei. 
Chorei feito uma louca, sozinha no sol de Copacabana.
Liver. Eu estava livre. 
Não precisava ser eu mesma por uma semana.
Eram as férias que eu tanto almejava. 
"Mas sozinha? Você é louca."
E que delícia de loucura. 
Que gosto bom - de água de mar - 
tem a loucura de soltar-se das amarras 
e correr sem se importar. 
Eu estendi minha canga na areia quente, 
deitei e acho que até dormi.
Tinha um casal falando espanhol atras de mim 
que me ofereceu bala, sorvete e pra olhar minhas coisas
enquanto eu molhava os pés. 
Foi incrível. 
A paz. 
Eu conversei com Deus na maior parte do tempo.
Conversei, porque eu não sei rezar.
E eu falei pra Ele como era bom se sentir corajosa,
desafiar-se e vencer. 
E Ele me respondeu com um pôr-do-sol lindo,
concordando.
Queria trazer um pouco de mar pra casa. 
E um pedacinho de sol.
Talvez um Corcovado pra varanda. 
E toda a paz da liberdade doce que eu me deliciei. 


Ana Laura Berigo Marques