quinta-feira, 16 de julho de 2015

Quando eu chorar porque perdi um paciente, não me peça para me acostumar porque escolhi a área da saúde. Quando eu sofrer junto com uma mãe que vê seu filho lutar contra um câncer, ou uma filha que precisa se despedir de um pai, não me peça para entender que quem escolhe trabalhar com saúde tem que aprender a lidar com doença e morte. Quando eu me emocionar com um pedido de ajuda ou um agradecimento final de um paciente, não me julgue fraca, porque eu preciso me acostumar com "esse tipo de coisa". Se um dia eu parar de chorar junto a um leito, se um dia meu coração não apertar ao consolar um filho ou um pai, se um dia eu ousar não explodir de alegria pela melhora de alguém que passe pelas minhas mãos, ou o contrário, sentir uma parte de mim despedaçar ao ver um paciente partir, se um dia eu não chorar numa derrota contra uma doença ou sorrir numa vitória que parece tão simples como dois passos, penduro meu jaleco e vou trabalhar com máquinas. Exatamente por não me acostumar com os golpes duros da vida é que amo a área da saúde. Trabalhar com pessoas é um dom que requer sensibilidade e paciência, amor e dedicação. Do sorriso que acolhe, do toque que acalma, do sinto muito que conforta. Ninguém escolhe a área da saúde; acredito que você nasce predestinado à contribuir com outras vidas. Se um dia eu me acostumar com a dor, não dobrar os joelhos para agradecer uma recuperação ou não conseguir ser forte o suficiente para assumir minha fraqueza perante à fragilidade da vida, penduro meu jaleco e, por Deus, nunca mais ouso pensar em lidar com pessoas, porque antes de reabilitar o corpo, preciso ofertar cuidados que toquem e curem a alma.

Ana Laura Berigo Marques


Foto do meu paciente querido, que chorou comigo ao se despedir. Obrigada por cruzar meu caminho, onde quer que você esteja hoje, vai ser sempre a parte mais bonita da minha vontade de fazer o bem. 

A arte milenar da imbecilidade

Eu fui uma imbecil. Simples e fatal: uma imbecil incorrigível. Senta aqui, vou te contar. A história é longa, confesso. Mas história de amor que se preze precisa de tempo pra conter drama suficiente para ser digna de papel.  Talvez eu, que mergulho de cabeça nessas pessoas rasas, estava errada em chamar de amor. Pode ter sido apenas uma paixão. Avassaladora. Daquelas que vira nosso mundo de cabeça pra baixo e nem o espelho tem certeza que é você habitando aquele corpo. Não sei o que havia me tornado – além de uma imbecil. Ora êxtase, ora inferno, minha vida andava numa montanha russa maldita, me fazendo amar e odiar na mesma intensidade dentro de um único minuto. É, eu também não sei por que a gente se presta à esses papéis. Talvez seja o universo permitindo algumas coisas na nossa vida, pra ver se a gente cresce e aprende a ter coragem. Ou talvez eu fosse mais imbecil que os imbecis normais, porque eu passei por dias que não me aguentava de saudade. Meu peito sangrava, meu coração apertava, me faltava ar e eu ouvia o Zeca cantar pra mim que eu tava com “saudade d’ocê”. Eram as noites que eu sonhava com ele, acordava assustada e com raiva de me permitir passar por aquilo. Mas tinha dias que eu precisava de 10 segundos para raciocinar sobre “Quem era mesmo... ah tá, ele”, sinceramente, numa indiferença vitoriosa. Mas olha, eu passei dias de cão! Dias sem me alimentar, de arroz e de fé, permitindo que meus medos devorassem o pouco de esperança que sobrava aqui dentro. A impressão que eu tinha era de estar vivendo num pós-furacão emocional, onde estava tudo – absolutamente tudo – de ponta cabeça, amontoado, confuso. Lutava comigo, numa disputa incansável, sobre querer saber sobre ele ou fingir que nunca conheci. Nenhuma rede social desbloqueada, nenhuma ligação atendida, nenhuma mensagem retornada. Mas confesso que, como uma superimbecil, eu esperava pela ligação que eu não iria atender ou a mensagem que eu não iria responder. De alguma forma, meio doentia eu sei, eu queria que ele lembrasse de mim. Se arrependesse todos os dias do que me fez passar e, principalmente, do que abriu mão de passar ao meu lado. Acho que silenciosamente eu alimentei um monstro que crescia junto com a minha cegueira seletiva. É claro que, pro mundo, tava tudo bem. Eu jamais, JAMAIS, confessaria uma saudade dele. Mas nem morta! Mas tinha dia que era foda. Eu me tornava uma imbecil ultra super mega. Onde já se viu lembrar daquele sorriso de bom dia, com olhos semi abertos de preguiça, um abraço demorado, deitado naquela coberta de elefante e o nosso café na cama ? Onde já se viu rir sozinha das piadas que a gente fazia, dos planos que a gente tinha, daquelas implicâncias idiotas, do Breaking Bad que eu ainda não tive coragem de voltar a assistir? Pra que ficar pensando no modo como ele me olhava quando a gente fazia amor, o jeito que ele sorria satisfeito e me aninhava no peito? Qual a finalidade de morrer de saudade do beijo longo, cheio de vontade, que parecia sempre o primeiro? Eu era realmente uma imbecil plus advanced master. Eu já me peguei sorrindo e depois chorando e sorrindo de novo, parecendo uma idiota, olhando pras nossas fotos. Me arrependia de ter insistido por cada clique que dei de nós dois. Se eu soubesse como essas lembranças pesariam, deixaria apenas as que ficaram guardadas na minha cabeça. Eram suficientes. Registros fotográficos de uma fase a ser esquecida são as testemunhas mais cruéis da nossa história. Shakespeare estava certo quando disse que “guardar algo que possa recordar-te, seria admitir que eu pudesse esquecer-te”. Por isso eu apaguei tudo, dei nossas fotos pra minha mãe esconder, não usava nunca os presentes que ele me deu, evitava nossas músicas. Porque eu não podia esquecer. Talvez fosse assumir uma fraqueza e tanto, dar uma vitória de bandeja pra alguém que não merece. Mas eu sou assim. Eu não aprendi o desamor, como ele finge ter aprendido. E nem quero, porque graças à isso, hoje eu sou um punhado de experiências. Um punhado de dores de desamores e tantas desventuras. Sou um arranjo de quem cruzou meu caminho, no asco ou no carinho. Fui somando as minhas partes, que são pedaços soltos daqueles que partiram de mim. A maior partida foi ele, sim. Incontestável. Não vou negar que diversas vezes eu rezei pra que tudo aquilo não passasse de um pesadelo e quando eu acordasse, nunca teríamos nos conhecido. Mas não é tão simples. Nunca vai ser. O que me consola é saber que sempre - sempre – tem o que aprender numas situações assim e se não for pro bem, vai ensinar como não devo ser. Como não sustentar o mundo de outra pessoa nas mãos sem ter a intenção de realmente segurá-lo. A questão é que ser uma pessoa intensa nesse mundo supérfluo é atividade de alto risco. A gente quebra a cara, quebra as asas e fica com muito medo de voltar a voar. Mas ainda assim, não deixa de acreditar e uma hora, por mais difícil que pareça, a gente volta. Talvez volte porque é mesmo imbecil, que não espera por alguém que cure feridas ou preencha lacunas que foram deixadas, mas alguém que não deixe nenhuma dor passada ser lembrada pelo simples fato de transbordar naturalmente aquilo que falta. No meu caso, essa pessoa podia ter sido ele, mas talvez ele seja ainda mais imbecil a ponto de achar que eu nunca superaria a falta que ele me fez – assim, no passado, porque eu aprendi a conviver com ela, sem dor, sem culpa, amigavelmente me ensinando que vão-se os anéis e ficam os dedos... No fim, todo mundo, por mais imbecil que pareça, aprende alguma coisa: nem que seja como é ruim ser o imbecil da vez e não fazer o próximo de imbecil, porque é chato pra caralho. 

Ana Laura Berigo Marques


Mil Tsurus (Parte 2)







Mil tsurus pra eu ter paz, 
Mil deles pra não te ver mais. 
Mil tsurus pela minha liberdade, 
Mil deles pra você entender que agora é tarde. 
Mil tsurus pra você sumir, 
Mil deles pra tudo fluir. 
Mil tsurus é origami pra caralho, 
Se eu dobrar mil tsurus e mesmo assim você não desaparecer, 
Dobro mais mil pra você morrer. 





Ana Laura Berigo Marques

Mil Tsurus (Parte 1)

Mil tsurus pra felicidade plena,
Mil deles por alguém que valha à pena.
Mil tsurus por lealdade,
Mil deles contra a maldade.
Mil tsurus pelos desejos guardados,
Mil deles pra os planos sonhados.
Mil tsurus pela liberdade,
Mil deles pra amar de verdade.





Ana Laura Berigo Marques



"Tsuru é uma ave sagrada do Japão. É o símbolo da saúde, da boa sorte, felicidade, longevidade e da fortuna. Conta a lenda japonesa que o tsuru pode viver até mil anos. É considerado o pássaro companheiro dos eremitas que se refugiavam nas montanhas para meditar, acreditando possuírem poderes sobrenaturais para não envelhecer. A lenda diz ainda que se a pessoa fizer 1000 tsurus, usando a técnica do origami, com o pensamento voltado para um desejo, ele poderá se realizar."

sexta-feira, 14 de março de 2014

Luz

Tenho uma Luz.
Não é no fim do túnel como dizem as crenças.
Nem no meio do caminho, feito a pedra.
Está no início de tudo. 
No gênese da caminhada.
Nas horas de riso e nas horas de maçada.
Tenho uma Luz bem minha, 
de toda hora, de toda quinta de primeira.
Dos traços, dos passos, dos versos paridos ás sextas-feiras.
No ínicio, meio que pelo acaso da feliz segunda-feira, 
todo dia é dia de render-se a saudade costumeira.
Amo-te tanto, 
todo dia um pouquinho mais. 
Tenho uma Luz que acende as minhas mais tristes escuridões.
Fogos de artifício, fogueiras e clarões.
Tenho uma Luz, que consegue ser Luz até estando em treva.
Segura firme minha mão, me guia, me revela. Me eleva. 
Tenho uma Luz que traz sorte,
Pé-de-Coelho, trevo, amuleto de prece.
Que seja na pressa, não interessa:
Se tem "Bom dia Luz" o dia se aluimia. 

Ana Laura Berigo Marques





Amo você, Pé-de-Coelho, obrigada por me deixar fazer parte do seu espetáculo. 

Coisa

Acho graça dessa coisa que me dá
quando sobe sua janela
com uma besteira pra me falar.
Acho graça do meu coração satitando
parecendo uma gazela, 
me sinto meio princesa e meio cadela.
Acho graça dessa coisa que me dá
de que, mesmo não podendo, querer te roubar,
louca pra te devorar.
Acho graça da coisa que me dá 
quando vejo que você desconversa 
quando eu banco a pedreira a assoviar - fiufiu.
Acho graça dessa coisa que me dá
quando a saudade dá pulinhos 
a me contrariar. 
Só não acho graça quando eu tô de tpm. 
De tpm fica cinza essa gracinha.
Aí não tem graça sentir coisa sozinha. 


Ana Laura Berigo Marques





Elo

Não conseguiria olhar nos seus olhos 
e dizer exatamente o que eu estou sentindo agora. 
Talvez seja um pouco de espírito protetor.
Talvez peso na consciência por não fazer
o tanto - infinito - que você merece.
Não conseguiria olhar nos seus olhos agora
porque estou chorando envergonhada 
por não conseguir olhar nos seus olhos.
Não tenha como um pedido de desculpas,
nem uma obrigação, nem remorso.
Tenha como a transcrição do amor 
que não consigo por em prática da melhor forma.
Mas tenha como amor, 
escrito, clamado, chorado e versado,
mesmo que não consiga olhar nos seus olhos.
Não está sendo nada fácil, eu sei. Eu sinto.
Queria ser essa fortaleza que você é
porque eu me pego chorosa sempre que penso em tudo isso que está acontecendo.
Desculpa não olhar nos seus olhos.
Mas antes de olhos, coração. 
Amo imensuravelmente cada detalhe da sua existência.
Cada acorde que saem das suas mãos auto didatas, 
cada tom que atinge sua voz em melodia.
Amo, inenarravelmente,
cada crise e cada briga que temos por não saber que roupa usar
ou que cor de maquiagem combinar.
Amo ser espelho. 
Amo sua capacidade. 
Amo sua fé. 
Amo sua inteligência e talento.
Amo ser coruja.
Amo seus olhos de jaboticaba.
Desculpa não conseguir olhar dentro deles pra te dizer tudo isso.
Mas eu quero que saiba que faço - e farei
o impossível para mantê-los assim:
faróis pra mim.
Mesmo que não esteja te olhando nos olhos,
te amo, sem fim.


Ana Laura Berigo Marques