sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Ilativo


E sem dia marcado,
Sem aviso prévio ou momento esperado,
surgiu em mim,
Insidioso e feroz.
Apoderou-se da minha razão
e me fez delirar,
proibida e deliciosamente,
com teus olhos eternos.
Não lutei contra,
não tentei manter meu eu em mim:
entreguei-me, furtiva e ávida, aos seus encantos.
Sem hora, expandiu-me.
Tanto e de tal forma
que não caber em mim excitou-me,
tanto e com tamanha intensidade
que me mantive afoita do lado de fora de mim,
assistindo ao meu espetáculo de devaneios particulares
em polvorosos aplausos proibidos.
Deleitei-me doce,
maldita
e tentada.
E entre minúcias,
Escancarei platônica minha vertigem.
Deitei-me de olhos fechados na inconstância,
Deixei-me levar, absorta e satisfeita,
Esperando um modo secreto de absorvê-lo,
Tudo e todo, pouco por vez,
Surdina, irreversível  e tentadoramente.

Por Ana Laura Berigo Marques 


domingo, 23 de outubro de 2011

Alvitro

Guardei a última rosa, vermelha desbotada
No canto esquerdo.
O último cheiro de perfume, escondi mais no fundo.
Acomodei aquela última gota de suor, 
que desenhou norte e sul em seu peito febril,
Naquela última noite de amor,
Ao lado das tardes chuvosas de domingo.
Embrulhei teu último sorriso, ainda sorrindo.
E ainda quente, seu último abraço.
Foi fácil.
Joguei por lá, meio sem jeito, os últimos passos no corredor,
O telintar das chaves e
A ausência do último olhar ao cruzar a porta.
Amarrei o mais forte que pude o nó no peito
E depositei, devagar pra não desatar,
Do lado direito.
Parecia mais fácil de longe.
Desembrulhei o silêncio há muito guardado,
Deixei-o em cima da mesa a me fitar.
Eternos segundos de uma estranheza feroz.
Foi então que percebi que Neruda é que tinha razão.
Posso já não amar tanto,
Mas talvez ainda ame.

Por Ana Laura Berigo Marques 

 

sábado, 22 de outubro de 2011

Empirista


Ana Laura Berigo Marques, Ana, Aninha, Laurinha, Lála, Branquela, Flor, Pequena, Berigo, Beriguete, Filha, Irmã, Prima, Amiga. Ex-Futura Secretária, que chamaria Carla assim que tivesse idade pra mudar de nome (4 anos, um monte de papel, uma cadeira que gira e um computador de caixa de sapato), Ex-Futura Cantora/Atriz/Apresentadora/Modelo/Dançarina (5 anos, com uma bota de cano alto e salto fino e uma blusa de veludo que virava vestido, da mãe),  Ex-Futura Professora (6 anos e vizinhos pra brincar de escolinha), Ex-Futura Médica Pediatra ( 7 anos, uma boneca e um kit do Mickey Mouse), Ex-Futura Arquiteta, (8 anos, uma casa de Barbie, um lápis e um papel), Ex-Futura Papiloscopista (13 anos e primeiros episódios de CSI), Ex-Futura Arquiteta ( 14 anos, equação de segundo grau e notas boas de matemática), Ex-Futura Perdida (17 anos, um professor de matemática que causa matematicofobia, um terceiro colegial pela frente, uma avalanche de vestibulares, decisões e escolhas imediatas), Ex-Futura Terapeuta Ocupacional ( 17 anos e meio, um “Feliz Ano Velho” no criado, uma vontade de ajudar e mudar tudo), Ex-Futura Universitária da área de Biológicas, com um pé em Letras (18 anos, vestibulares, escolhas, falta de coragem), Ex-Recém Aprovada no Vestibular, no ProUni e decidida. Futura Fisioterapeuta na Geriatria e/ou Oncologia e/ou Ginecologia e Obstetrícia e/ou Professora Universitária, Pesquisadora, Escritora de livros, blog, facebook e secretisses, e Bem Sucedida. Ex-Futura Vou ser o que eu quiser quando eu quiser: Atual Eu sou o que eu quero, do jeito que eu quero, quando eu quero, mudando muito e sempre. Bem-vindo a minha Doce Catatonia.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Excerto de Hipérbole


"Acende.
Mas se acender, incendeio.
Fagulha de querer não queima desejo."

Ana Laura Berigo Marques


 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Bel-prazer


Troco meus pensamentos mais sórdidos
Pela sua mais doce confissão.
Quero, no pé do ouvido,
Baixinha e perigosa,
Roçando minha imaginação.
Troco meu gosto mais ácido
Pelo seu beijo mais sutil.
Que seja quente,
Permanente e pueril.
Troco minhas mãos atadas
Pelos seus dedos entrelaçando os meus.
Quero, tocando de leve,
Cabelos e anseios,
mas nunca acenando adeus.
Troco meus olhares roubados,
De canto, de lado,
Pelo seu mais profundo examinar.
Quero que penetre em minha alma,
Consentido, ávido, padecido de agravo,
Grave e meu.
Troco meu apetecer
Pela sua cobiça.
Nada de entrelinhas,
Quase dizeres, com tamanha poesia.
Por fim, troco minha veleidade
Pela sua intenção fugitiva.
Impreterivelmente, fantasia-me.

Por Ana Laura Berigo Marques

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Vociferai


Escarra teus filhos
Na terra infértil,
E gargalha-se todo
em seu sentimento de erva daninha,
diante do homem infame,
Que chora semente boa
Que não germina.
Lambuza-se,
Deliciosamente,
No banquete de almas vazias
E cabeças arrematadas
Em leilão de homens,
Enquanto a mãe chora
O filho vendido á sorte dos desgarrados,
Desgraçados, sem pátria.
Festeja o novo ópio,
Desfilando em procissão,
De cifra em cifra,
Errecifrão.
Aplaude teus filhos fúteis,
Inúteis, cruéis:
Eis que chega tua conquista,
Mundo novo e vida velha,
na sociedade ‘mercenarista’.

Por Ana Laura Berigo Marques