Faça-me livro.
Arreganha-me as páginas, decifra-me as entrelinhas.
Sublinha-me, rabisca-me.
Dobra-me, amassa-me,
leva-me em teu colo pra todo lugar.
Pega-me na insônia, que,
se não te faço dormir,
acordado, te faço sonhar.
Descubra-me as mil faces,
E se não gosta, reescreva-me.
Se tenho páginas em branco,
As que ainda não vivi de romance nem de drama
nem de nada,
Escreva-me, cada dia um pouquinho.
Apaga-me toda se preferir,
Mas não me deixe com páginas amareladas
Pelo tempo, pelo vento, pelo hábito.
Ilustra-me, faça-me olhos,
Faça-me gosto, corpo e pernas.
Desbota-me as páginas pelo uso,
Arranca-me a capa, a força e a fome de mundo.
Guarda-me na sua cabeceira, no seu cobertor,
Na sua cabeça,
Escreva-me amor.
Por Ana Laura Berigo Marques

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