quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Pra poder falar de amor


Pra poder falar de amor eu penso na pureza daqueles olhos, 
no entrelace dos dedos, 
no entrelace dos planos, dos sonhos
das perdas, dos ganhos.

Pra poder falar de amor eu penso na saudade sem medida
de quando eu me despedia, desatando o laço
com aquele cheiro que ainda estava nas minhas mãos 
e aquele calor ainda no meu abraço.

Pra poder falar de amor eu penso nos olhos nos olhos
enquanto desajeitávamos o lençol 
arrancando roupa, suspiros, 
pudores, arrepios. 

Pra poder  falar de amor eu penso em tudo 
como se fosse sempre a primeira vez.
Primeiro toque, primeiro beijo, 
primeira perda de fôlego e de lucidez. 

E sei que eu falo mesmo de amor
porque seu rosto é que aparece
quando fecho os olhos, 
quase em prece, 
pra poder falar de amor.

Por Ana Laura Berigo Marques 



O que nos ensinaram sobre o amor


Estranho pensar que o amor, tão nobre, seja culpado por corromper a inocência e a pureza dos corações desiludidos. Não percebemos que fomos ensinados, desde sempre, a depositar esperanças demais em outra pessoa, como se ela fosse obrigada a se comprometer em superar nossas expectativas. Somos educados num suposto sentimento de amor de doação total, entrega absoluta, auto-anulação para viver parasitado em outra pessoa. Planeja-se o amor antes mesmo de encontrá-lo. É como se agíssemos todos por protocolo. Amor não é isso. Amor requer entrega, mas também moderação. Não se vive só de amor, como não se morre de amor nem se ama sem medidas. Não se jogar de cabeça precocemente numa relação não te faz incapaz de amar. Fomos educados para grandes paixões de cinema, na loucura da necessidade do "amar sem pensar". Tá errado. Amor é calma, é zelo. Turbulência sempre faz a cabeça entrar em pane e aí sim temos uma tragédia. A gente tem que amar devagar, degustar, apreciar tudo pra depois amar mesmo e aí sim falar que ama. É uma responsabilidade muito grande para ambos: tanto para quem carrega um sentimento assim e quanto para quem ele é destinado, já que não nos ensinaram a lidar com rejeição. Fomos educados num mundo onde falar e sentir não tem o mesmo peso e a mesma medida. Tudo é simples demais, rápido demais. Tudo tornou-se supérfluo demais. Fomos educados para sermos essencialmente carentes e necessitar do outro para nos completar. Não é assim. Amor é troca, não é dever nem direito. Amor é natureza. Não tem manual que te ensine a amar, ou desamar ou ainda fazer com que alguém te ame de volta. Amor, amor mesmo, é igual uma semente, que tem seu tempo para desabrochar. De nada vale maximizar as coisas para adiantar o processo e "otimizar" seu tempo. Isso não é amor. Fomos educados para o amor com base nas regras do apaixonar-se. Esse desatino todo, essa dor, essa sede. Amor não é imediatista. Não se ama por um beijo, não se ama só pelo que se faz na cama. Amor mesmo a gente constrói aos poucos: nos olhos, nas longas conversar, no riso frouxo sem motivo, nos detalhes, na música repetida 30 vezes, nas dificuldades, numa coleção de pôr-do-sol. Amor tem seu lado do costume, da rotina. Não que eu esteja falando que amor é tédio, mas amor, pra valer, não nasce do dia pra noite. Amor é paciência, é cultivo. É alinhar-se na vida de outra pessoa sem se anular e isso leva tempo, leva lapidação minuciosa. Você pode, aliás, você deve, se apaixonar quantas vezes for possível. Paixão é combustível, é fogo pra arrebatar a vida da gente, é êxtase. Mas amor, meu caro, amor é quando o coração se aquieta. Não porque você achou o que estava procurando, porque amor não é jogo de caça, mas porque você reconheceu em alguém o que te faz bem; nem porque é o que te completa, porque não se usa amor pra preencher lacuna. Seu coração se acalma porque sente vontade de ser melhor. Você passa a entender a essência e o valor da reciprocidade. Fomos educados para sermos egoístas no amor; não se doa sem receber de volta, não se faz se não tiver algo em troca. Mas amor de verdade te mostra que é a base da partilha. Partilha de sorrisos a lençóis, sem estar obcecado a ideia de que você será recompensado em algum momento. O que não nos ensinam é que a gente não encontra UM amor, O amor é que encontra a gente. Não se ensina direito sobre amor, porque amor não se aprende. Amor, amor mesmo, a gente sente. 

Por Ana Laura Berigo Marques