Pensei em descrever-te. Falar horas a fio desses olhos de algo mais, tão profundos de um abismo avassalador e irresistível. Descrever a vontade de jogar-me de olhos fechados nesses seus olhos abertos, descobertos de pudor e malícia. Tocar essa sua incógnita infinita, deliciosamente indecifrável. Desejei escrever-te nas minhas folhas amassadas, com todo esse olhar, que mais que ressaca, me é de mar em fúria, sedento de desejo silencioso. Quis cravar teus lábios no meu papel, pra ver se algo de fidedigno os saia, mas nada que eu escreva, faça ou diga, será fiel á sua magnitude. Pensei, por diversas vezes descrever-te, escrever-te como em “Budapeste”, mas me falta palavra, me falta ponto, me falta pausa e me sobra falta. Pensei em escrever sobre a ausência de presença vital, ou sobre presença de ausência mortal, imortal e me vi catatônica diante do medo de perder-me em vistas e por perder-te de vista. Pensei em intertextualizá-lo, em tantos olhos , tantos gostos, tantos sentimentos já descritos, mas aí não seria meu. Tentei descrever-te em meus altares particulares de um id que causaria arrepios em Freud, de todas as vontades, insanas e profanas que jorram de meus pensamentos fazendo cascata de volúpia pelas minhas vísceras. Quis mastigá-lo em minhas lembranças, e digeri-lo vagarosamente. Absorvê-lo pela pele, cada milímetro de sua vontade, de sua sede de gosto, de carne, de pecado. Pensei em descrever minhas unhas cravadas em sua pele, e o sal da pele na minha boca, mas os olhos nos olhos me desconcentram de tudo ao redor. Pensei em descrever-te por sensações, como onda que quebra em festa quando você se aproxima sempre pensativo, mas nunca imperceptível. Desisti de descrever-te, escrever-te, absorver-te. Decidi viver de catatonia pelos caminhos tortuosos que seus olhos trilham por mim, pra mim e em mim. Deixei de descrever-te, para descrever-me escrava das suas sensações por minhas tentações.
Ser escravo de si mesmo "versus" ser você mesmo.
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