quarta-feira, 4 de abril de 2012

Imo

Disseram então que eu deveria me preocupar. Disseram que voar era coisa de passarinho e amor, de gente grande. Disseram que as pessoas mentem e que muito falam e pouco sentem. Disseram pra eu ter medo da chuva e fechar as janelas. E que, se oposto, pra me proteger do sol também. E que o escuro tem segredos. Disseram pra eu não confiar na lua, que ela tem amantes demais, espalhados por todo canto. Disseram pra eu te medo do tempo. Daquele tempo que corre e daquele tempo que não passa. Disseram pra eu tapar os ouvidos aos ruídos do vento, que mau conselheiro ele me seria, porque me daria vontade de asas qe eu nunca teria. Dissera que o chão é o lugar dos pés, e a cabeça o do coração. Disseram que ignorasse o chamado de qualquer vontade: "boa menina, por saber de onde vem, sabe pra onde vai e o que lá tem de verdade." Disseram pra não encarar o horizonte. Ele usurpa razões e , de tão perverso, converte o certo em instinto e contorce o destino e te faz néscio além do necessário. Disseram que esperança é coisa de gente sem rumo e que pensar demais envelhece. E como me haviam dito pra ter medo de envelhecer, porque envelhecer é triste, era melhor obedecer. Disseram que o tal infinito é coisa de livro, de poesia, de gente que quer te fazer acreditar que as coisas estão ao nosso alcance. E disseram que a vida não é assim. Aí, quando fez-se silêncio, enquanto eu dormia, de olhos bem fechados porque me disseram pra temer também a luz, ouvi algo contar sem dizer palavra, que não me diria nada porque a única coisa a temer era as pessoas que falam demais. Susurrou em silêncio que quem se preocupa tanto com dizeres, deixa pela metade seus viveres, não absorve seus prazeres, não compreende seus sentires, é vazio de sonhares e resigna seus quereres. Aí eu vi que quem muito fala, perde-se na teoria e não vive a prática.


Por Ana Laura Berigo Marques



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