Quem dera um dia engolir o remorso que lhe abstém a vontade de continuar. Quem dera um dia desfazer-se dos nós, que antes eram laços, mas que agora apertam, degolam, entristecem, doem cada vinco. Quem dera um dia a beleza não mais esvaísse a cada pulsar do relógio. Quem dera um dia poder tecer uma nova rima, bordar novos sorrisos e esquecer-se dos dias em que o sol insistiu em esconder-se.
Queira Deus um dia que lhe sobrem forças, lhe cessem os tropeços e que a caminhada, por mais árdua, lhe cative e lhe recompense. Queria Deus que as tempestades venham para irrigar os campos secos do seu coração, e não afogar o que ainda lhe resta de esperança. Queira Deus, permita Deus, queira ela e que permita-se florescer. Quantas vezes for necessário. Que não desista das suas flores, e aprenda que o outono que seca e extirpa sua beleza, faz-se necessário no ciclo de re-exornar-se logo a frente. Queira Deus que aprenda a não esperar demais, nem acomodar-se com o de menos. Queira Deus que aprenda, de uma vez por todas, a controlar seu coração sem abrir mão dos seus impulsos, mas sem entregar-se tanto a sede do imediatismo que estagna suas continuidades. Queria Deus que que não caleje. Queira Deus que não desista, mas que não insista no que já não vive mais.

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